Exumação
Essa quinta - feira parecia estar a decorrer normalmente até receber um telefonema de Marvão. Apesar de extraordinariamente bela e harmoniosa, Marvão, " a vila de onde se vêem os pássaros pelas costas", não deixa de ser excruciante receber um telefonema do cemitério local.
A família do meu Avô é de lá e, pelo que pude perceber, ao fim de 7 anos na terra, um corpo tem que ser exumado. Pois ali estava eu, como familiar mais próxima a ser "convocada" para esse acto que por completo desconhecia. Pior, a dor da perda do Avô Zé (que nunca passou), recrudesceu como um monstro que estivesse a dormir dentro de mim, ou escondido, bem escondido num canto qualquer que eu desconhecia na minha existência. O meu estado de humor de imediato começou a mudar.
Passei a chamada para o meu pai, o António. Infelizmente, o António esteve a maior parte da sua vida sem falar com o pai, ele diz que por causa dumas acções quaisquer, que acha que o pai o roubou, eu o que vejo é que há pessoas que têm o dom de afastar umas das outras, mesmo aquelas que se querem e que se amam muito. E quando o António se casou com a Margarida, depois de se separar da Carmen (a minha Mãe), o Zé nunca mais viu o António. Nem o António viu o Zé. E, especialmente, o Zé nunca mais quis ver o António. Por vezes, muito por vezes, já depois de muitos anos passarem, dizia-me o Avô Zé: "Ó Luísa, não fosse cá por coisas e disto da justiça andar toda ao contrário, ia a Espanha (onde o António e a Margarida viviam), e dava-lhe um tiro a ela, o que achas Luísa?"
E eu respondia que achava que não, que percebia aquela grande dor, que também a sentia, mas que o Universo tem leis e sentires, também, e faz sempre justiça, mesmo que nós nem saibamos. "Ó Avô, não pense mais nisso, isso já passou, em frente, a Vida é em frente, meu Querido Avô."
A verdade é que nessa quinta-feira, o meu pai, que também esteve ausente da minha vida 25 dos 39 (embora pareçam 18) anos que tenho, mas que agora já voltou a considerar que existo, embora com oscilações .., não atendeu, por casualidade, o telefone.
Então, liguei à Margarida. Ok, Margarida, ligaram do cemitério de Marvão vai haver a exumação do corpo do Avô Zé, passaram 7 anos, é necessário que algum familiar próximo, preferencialmente o filho, esteja presente. A resposta foi mais do que desconcertante, foi monstruosa, como tudo o resto que envolveu todo este episódio fúnebre.
"Não, não, não metas o António nisto, ele nem foi avisado da morte do Pai. Além disso, não foste tu a herdeira? Vai tu tratar do assunto!"
E fui.
Não fazia ideia do que é uma exumação.
Não fazia ideia de que iria ver todos os restos mortais do Avô a serem retirados do chão (misturados com os bocados de caixão, com lascas de madeira) ainda envoltos no casaco bonito que lhe tínhamos vestido e como se já nada daquilo tivesse sido um ser humano cheio de Vida e Dignidade fosse depositado num saco de plástico preto, para depois ir para uma urna ou um ossário, ou algo assim. E graças ao Primo Tó e à Tia Isabel que entretanto apareceram e me apoiaram, as lágrims secas por dentro, o monstro contente a crescer; porque senão, o meu Avô Zé, de quem tratei com todo o meu carinho, tinha ido para a vala comum, e acho que o António e a Margarida ainda tinham batido palmas.
Mas lá está, o Universo não dorme. Só parece. De vez em quando.
The experience of losing a loved one impels us toward a deeper understanding of life. Everyone fears and is saddened by death. That is natural. But by struggling to overcome the pain and sadness that accompanies death, we become sharply aware of the dignity and preciousness of life and develop the compassion to share the sufferings of others as our own.